Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

Diferentemente de outras datas do calendário apresentadas anteriormente aqui no BAMIN em Ação, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa não é para ser comemorado. Ele surge de um episódio triste da história recente de nossa Bahia, que resultou no falecimento, em 21 de janeiro de 2000, da yalorixá Gildásia dos Santos. Um passado que traremos aqui em nossa série especial, por acreditarmos ser necessário o combate ao preconceito em qualquer uma de suas formas.

Mãe Gilda de Ogum, como é conhecida, fundou no final dos anos 80 o terreiro Axé Abassá de Ogum, no bairro de Itapuã, em Salvador. A líder religiosa sofria do coração e faleceu aos 64 anos por complicações de saúde, após ter a sua imagem associada a uma publicação. Anteriormente, a sacerdotisa já havia sido atacada física e verbalmente em seu templo.

Hoje, o terreiro Axé Abassá de Ogum está sob responsabilidade de Jaciara Ribeiro, uma dos seis filhos biológicos de Mãe Gilda. “O terreiro ficou fechado por sete anos, em luto. Hoje eu mantenho viva a história de minha mãe, com muita ética e respeito”, conta.

Mãe Gilda era muito mais do que uma líder religiosa. Ela tinha um papel social importante em sua comunidade, levando alimento a quem não tinha e apoiando outras mulheres no tempo em que nem se falava em sororidade. Ela própria foi um exemplo de empoderamento feminino. “Minha mãe era uma mulher preta, casada com um homem branco. Contra todo o racismo, seguiu a sua vocação e fundou o Abassá. Ser yalorixá foi conquistar respeito não por ser casada com meu pai, mas por seu próprio feito”, orgulha-se Mãe Jaciara.

O trabalho social tem a ver com a filosofia das religiões de matriz africana, que pregam o acolhimento e a paz. Mãe Jaciara, além de manter o legado espiritual da mãe, segue a trajetória de luta e ajuda ao próximo, criando o primeiro coletivo de yalorixás do país. Com o nome de “Mulheres que transformam”, está instalado na terra do Quilombo Caipora, em Lauro de Freitas, com mais 16 mães de santo.

Além da criação do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (21/01), sancionada em 2007, Mãe Gilda de Ogum ganhou em sua homenagem um busto em Salvador, obra da escultora Márcia Magno, instalada no Parque Metropolitano do Abaeté. Desde a inauguração, em 2014, o monumento já foi depredado e incendiado pelo mesmo homem duas vezes. “Sempre que atacam a história de minha mãe, é como se fizesse um holocausto do povo de terreiro, como se matassem toda uma tradição”, reclama Jaciara.

Neste sábado (25), Jaciara promoverá a segunda edição do “Arrastão da Liberdade”. “A intenção é arrastar para longe a negatividade”, explica sobre o que inspirou o nome do evento, que terá trio elétrico, apresentações do Malê Debalê e das Filhas de Ghandy. Saindo às 8h30 do Axé Abassá de Ogum e indo até o Busto de Mãe Gilda, a iniciativa terá participação de membros de diversas religiões e doutrinas. Na ocasião, será apresentada a peça teatral “O diálogo inter-religioso”.

Mesmo admitindo que é extremamente triste falar sobre as circunstâncias da morte da mãe, Jaciara e a família defendem que não se deve pagar o ódio com ódio. “Eu perderia a minha identidade, a minha essência religiosa”, afirma a sacerdotisa.

Também filho biológico de Mãe Gilda, Ubirajara Ribeiro, seguiu uma orientação religiosa diferente da irmã. Atualmente morando em Guarapuava, no Paraná, ele é da religião Adventista. “Peço e oro para que tenhamos amor e respeito uns com os outros. Pregai o Evangelho com amor, aceitai as escolhas religiosas de matriz africana… uns aos outros, não sejais juízes ou profirais sentenças contra irmãos em Cristo, assim como fizeram com mainha, Jaciara e muitos pelo mundo”, desabafa.

Aos leitores do BAMIN em Ação, fica a reflexão.


Publicado em: 24/01/2025