Dia de Iemanjá: homenagens de pescadores se transformam em grandes festas populares

Dia de Iemanjá: homenagens de pescadores se transformam em grandes festas populares

Abrindo os caminhos para as festas populares do mês de fevereiro, temos, no dia 2, a tradicional Festa de Iemanjá. A celebração é destaque no BAMIN em Ação desta semana, na série especial sobre as tradições populares da nossa Bahia, nas cidades por onde o projeto da BAMIN passa.

Uma curiosidade sobre o Dia de Iemanjá é que nesta celebração não existe sincretismo religioso, não sendo, portanto, uma festa onde também se homenageie um santo católico. Janaína, como é conhecida, é a “Rainha do Mar” nas religiões de matriz africana, a “Mãe de Todos”, que abençoa os pescadores com bons peixes e mares tranquilos. É presenteada em seu dia como forma de respeito, de agradecimento e de pedido.

Dia de Iemanjá em Salvador

E se é para falar da festa de Iemanjá, o melhor roteiro é começando por Salvador, onde a celebração toma as principais ruas de um bairro inteiro, o Rio Vermelho. Para esta edição do evento, que neste ano completa 103 anos e cairá em um domingo, são esperadas cerca de 1 milhão de pessoas.

Na alvorada, antes das 5h, fogos de artifício anunciam o início das homenagens, após a chegada do presente principal de Iemanjá, que sai do Terreiro Olufanjá – Ilê Axê Iyà Olufandê em direção à Colônia de Pesca Z1. Ao longo do dia, outros balaios com oferendas se juntam ao local e aguardam até serem levadas, às 16h, por embarcações ao Buraco de Iaiá, local em formato de concha situado a 3 milhas náuticas da terra.

Iemanjá e sua festa também encantam quem vem de fora. Mirian Lacerda, Gerente Regulatório da BAMIN, que é de Minas Gerais, mas tem uma ligação forte com o mar, participou pela primeira vez da celebração em 2023. No ano seguinte, assim como fará este ano, alugou um apartamento no Rio Vermelho para passar os dias da festa e poder ter a experiência completa, desde a alvorada e a entrega das oferendas até a festa “profana”, que segue tarde e noite adentro. “A visão que a gente, do sudeste, tem da Bahia é de que aqui as pessoas têm a capacidade de entender e respeitar a fé de todas as pessoas, de se juntar nesses momentos de celebração”, comenta.

Mas, se engana quem pensa que as homenagens a Iemanjá na capital baiana tiveram início no Rio Vermelho, como explica o jornalista e historiador Nelson Cadena em um artigo publicado no Correio. Ainda no final do século XIX, a reverência à “Mãe D’Água” era realizada de forma clandestina em Itapagipe, na praia atrás das ruínas do Forte de São Bartolomeu, nas imediações da Ponta de Humaitá.

Um dia, Itapagipe perdeu o protagonismo para Itapuã, que passou a ser o principal local do ritual religioso. Em meados da década de 20, após um racha entre as colônias de pescadores de Itapuã e do Rio Vermelho, a festa acabou mudando para onde atualmente está. Por lá cresceu e se transformou na grande festa que é hoje.

Essa história é bem conhecida pela produtora cultural e afro-empreendedora Juci Santana, 43 anos. Cria de Itapuã, ela é bisneta de Alzira de Jesus, uma das primeiras moradoras do bairro, nascida no final do século XIX. Juci é defensora do que chama de “identidade itapuãzeira” e realiza, desde 2020, as homenagens a Iemanjá e a Oxum – presenteado em 1º de fevereiro – nas águas de Itapuã.

Dia de Iemanjá em Ilhéus

Em Ilhéus, a cidade com o maior litoral da Bahia, as homenagens a Iemanjá também são tão exuberantes como a Rainha do Mar. A festa é realizada há mais de 70 anos na Litorânea Norte, no bairro do Malhado, Pedra da Sereia. Começou com os pescadores e suas oferendas, pedindo por fartos peixes. À época, convidaram para o ritual religioso o Pai Pedro Farias, babalorixá de grande legado para a história ilheuense, falecido em 2008.

Atualmente, a festa começa às 5h do dia 2, com a “Alvorada Festiva”, e segue com intensa programação até as 22h30. Tem o xirê, com rodas de baianas às 10h, e procissão marítima às 16h, com os barcos levando flores e comida, a exemplo do bolo manjar, preparado no dia 1º especialmente para a homenageada. A partir das 17h tem a festa de largo, com shows no palco montado. Neste ano se apresentam as bandas Samba de Treta, Fusca Virado e Dinho dos Teclados.

Uma estruturaé montada no local para receber as mais de 10 mil pessoas Tem apresentação de capoeira, banho de água de cheiro, de pipoca e de milho branco.

“Os barcos vão para o mar sem pentes, bonecas ou sabonetes, pois queremos preservar a casa de Iemanjá”, faz questão de ressaltar o caráter de preservação ambiental das oferendas o babalorixá do terreiro Ilê Axé Ballomi, Antônio Santos, de 58 anos. Conhecido como Pai Toninho, ele atualmente é a liderança religiosa à frente da organização do evento. “É uma data importante para o combate a intolerância religiosa e o preconceito, por permitir que os povos de terreiro mostrem à sociedade que cultuamos os orixás, a natureza, as matas, o mar, ajudando ao próximo e amando a Deus acima de tudo”, conclui.


Publicado em: 31/01/2025