Homenageada da edição 2026 da Festa Literária Internacional do Pelourinho, a poeta e jornalista soteropolitana Myriam Fraga é celebrada dez anos após sua morte como uma das mulheres que moldaram a cena cultural contemporânea. A escolha é mais que justa. O evento nasceu de uma semente por ela plantada, após retornar da Festa Literária Internacional de Paraty com o sonho de ocupar o Centro Histórico com livros, autores e seus leitores. Não chegou a ver o projeto concretizado, mas deixou para Salvador esse presente. Se hoje a Flipelô existe, a Bahia deve muito a Myriam Fraga.
Nascida em 1937, Myriam rompeu com o próprio destino. Criada em uma geração que projetava às mulheres o papel exclusivo de esposa e mãe, construiu uma trajetória intelectual sólida sem deixar a cidade natal. Publicou 31 livros, sendo 16 de poesia, sete de prosa e oito infantojuvenis, quatro deles lançados após sua morte, consolidando-se como uma das maiores vozes da literatura brasileira.
Em obras como Femina (1996) e Rainha Vashti (2015), seu último livro publicado em vida, explorou o universo feminino com densidade, lirismo e coragem. “Dizia que nunca precisou fazer terapia, porque transformava tudo em poesia”, lembra a filha, Ângela Fraga, em entrevista ao BAMIN em Ação.
O amor pelas palavras começou cedo. Filha de um médico apaixonado por livros, cresceu entre estantes e batalhas de declamação de poemas com o pai, disputando quem decorava mais versos. Antes mesmo de saber ler, já dizia que queria aprender para não depender de ninguém e sonhava ver o próprio nome na capa de um livro.
A amizade da família com Jorge Amado e Zélia Gattai aproximou, ainda mais, a jovem escritora do ambiente literário baiano. Após ler uma crítica positiva sobre Marinhas, obra de estreia da autora publicada em 1964, Jorge Amado pediu os originais do livro de poesias e os enviou a alguns contatos, entre os quais Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.
O mesmo amigo que confiaria à escritora seu acervo pessoal de fotos, cartas e originais para a criação da Fundação Casa de Jorge Amado, em 1986, por Myriam gerida até os últimos dias de vida.
“Minha mãe assumiu a Fundação com o mesmo rigor que se dedicava à própria escrita. Era extremamente organizada, dedicada ao trabalho e a tudo que se propunha a realizar. Repetia sempre a máxima de que ‘tudo que deve ser feito, há que ser bem feito’”, recorda Ângela Fraga, atualmente presidente da instituição.
Curiosidades sobre Myriam Fraga
- Marinhas foi lançado pela Macunaíma, selo criado em 1957 por Calasans Neto, Fernando da Rocha Peres, Glauber Rocha e Paulo Gil Soares para publicar jovens autores baianos em um cenário editorial ainda escasso. De perfil artesanal, com tiragens limitadas e forte cuidado gráfico, a editora marcou época e inseriu Myriam em uma rede intelectual decisiva para sua consolidação literária.
- Em 2025, foi homenageada na primeira Feira Literária de Autoras Baianas, realizada em Salvador e idealizada pela escritora Clarissa Mäcedo, para quem “a magnitude e a regularidade de seu trabalho, a qualidade estética constante e o alcance nacional de sua obra, além de sua contribuição à cultura da Bahia, não apenas como autora, mas como profissional que ocupou espaços pouco acessíveis às mulheres, tornam Myriam uma referência incontornável”.
- Entre 1984 e 2004, Myriam assinou a coluna cultural Linha D’Água no jornal A Tarde, tornando-se uma das vozes mais respeitadas da crítica literária e cultural baiana.
- Seu legado ultrapassou os livros: Myriam Fraga é hoje nome de uma praça no bairro do Itaigara, em Salvador.
*Fotos: Arquivo pessoal/Ângela Fraga

