Caetité 216 anos: um retrato cultural do alto sertão baiano

Cidade reúne patrimônio histórico, tradição oral e influências múltiplas em um cenário que evidencia sua importância regional

O BAMIN em Ação desta semana pede licença para homenagear a cidade sede da Mina Pedra de Ferro, Caetité, que no domingo, dia 5 de abril, celebra 216 anos de emancipação política. O aniversário marca a continuidade de uma trajetória construída a partir do encontro entre diferentes matrizes culturais, perceptíveis nas ruas, nas práticas cotidianas e nas formas de expressão que permanecem ativas no município.

Essa trajetória começa a se consolidar em 1810, com a criação da Vila Nova do Príncipe e Santana do Caetité, resultado de disputas por autonomia em relação a Rio de Contas. “A criação da vila não representou apenas um ato administrativo, mas um processo dinâmico de construção política, marcado por disputas, negociações e pela imposição de uma nova ordem social e urbana no sertão baiano”, observa o historiador e professor da UNEB, Zezito Rodrigues da Silva. Esse contexto ajuda a compreender a projeção que a cidade alcançaria ao longo do tempo.

Ao mesmo tempo, a história local remonta a um período anterior à colonização. O território já era habitado por povos originários, cuja presença permanece registrada em sítios arqueológicos da região. O próprio nome Caetité, de origem tupi, faz referência à “mata da pedra grande”, indicando a relação entre o ambiente natural e os primeiros habitantes.

Com o passar dos anos, outras influências se somaram a essa base. A contribuição africana se expressa, por exemplo, nas comunidades quilombolas, que somam mais de duas dezenas no município, sendo 14 oficialmente reconhecidas. São grupos que fortalecem práticas culturais e formas coletivas de organização. Em paralelo, a herança portuguesa aparece na religiosidade católica, nas manifestações populares, como o Terno de Reis, e na arquitetura dos casarões históricos do Centro.

Nesse contexto diverso, Caetité desenvolveu também uma característica singular no cenário cultural do interior baiano: a permanência da tradição oral. “Ainda hoje, moradores mais velhos preservam histórias adaptadas ao contexto local, com personagens e cenários da região”, conta o professor de Literatura na Uneb, Rogério Soares, autor do livro No Tempo dos Encantos. Segundo o pesquisador, mesmo sem formação escolar, muitos desses narradores dominam conhecimentos como o latim, o que evidencia um repertório incomum.

Espaços que revelam Caetité

Para quem deseja conhecer de perto essa riqueza, alguns espaços ajudam a traduzir a diversidade cultural do município.

O Museu do Alto Sertão da Bahia (MASB) é uma parada essencial. O acervo reúne mais de 20 mil peças arqueológicas, incluindo vestígios da presença indígena na região, resultado de pesquisas iniciadas a partir de 2009. O espaço se destaca por manter no próprio território materiais que, em outros contextos, seriam deslocados para grandes centros. Está localizado na Rua da Chácara, nº 245, no Bairro da Chácara. Funciona de segunda a sexta, das 8h às 12h e de 13h30 a 17h30.

Para uma experiência ligada à presença indígena, o Sítio Arqueológico Moita dos Porcos, vinculado ao MASB, na zona rural, reúne inscrições rupestres que indicam ocupação humana de mais de seis mil anos, além de iniciativas voltadas ao turismo comunitário.

A Casa de João Gumes, no Centro Histórico, guarda a trajetória de um dos nomes mais notáveis da produção intelectual do sertão baiano. João Gumes foi o fundador, em 1897, de A Penna, o primeiro jornal do Alto Sertão, que circulou até 1930 e registrou acontecimentos políticos, sociais e culturais não apenas de Caetité, mas de outras regiões do Brasil e de fora do país. Sua produção escrita e seu engajamento com temas públicos fizeram do periódico uma referência na consolidação da imprensa no interior baiano.

Já a Casa de Anísio Teixeira funciona como espaço cultural e museu dedicado ao educador, que é um dos mais importantes da Educação no Brasil. O casarão, localizado na Praça da Catedral, no Centro da cidade, preserva aspectos da vida e da obra de Anísio Teixeira, além de manter viva a tradição educacional que marcou a cidade.

No Arquivo Público Municipal de Caetité, situada na Praça Dr. Deocleciano Teixeira, Centro, o visitante encontra documentos que remontam ao início do século XIX, entre registros administrativos, fotografias e coleções de jornais que ajudam a compreender a evolução da cidade e do sertão baiano, inclusive edições do jornal A Penna.

A influência africana pode ser vivenciada em espaços como o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, na Estrada das Torres, e o Ilê Asé Dana Dana, na Rua São João, no Centro. Nos dois templos, tradições do candomblé permanecem ativas, com rituais, celebrações e práticas que integram o cotidiano da cidade.

São caminhos para conhecer Caetité, que revelam a força de sua história e a vitalidade de sua cultura, em um sertão rico em narrativas e experiências.

Fotos: Arquivo Público Municipal de Caetité, Prefeitura de Caetité, Wikipedia e BAMIN.

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