Jaqueline Góes: A mente por trás da explicação da pandemia

A cientista baiana que ajudou o mundo a entender a COVID-19

A biomédica e pesquisadora baiana Jaqueline Goes de Jesus ganhou reconhecimento internacional em 2020 ao coordenar a equipe responsável pelo sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2, vírus da COVID-19, apenas 48 horas após a confirmação do primeiro caso da doença no Brasil. O feito colocou a ciência brasileira em destaque mundial e demonstrou a capacidade de resposta rápida dos pesquisadores do país diante de uma emergência sanitária sem precedentes. Por trás dessa conquista está a trajetória de uma cientista que começou a construir seu caminho muito antes da pandemia, enfrentando desafios e redefinindo expectativas sobre quem pode ocupar espaços de liderança na ciência.

Nascida em Salvador, em 1989, Jaqueline iniciou sua formação em Biomedicina na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Depois seguiu para o mestrado no Instituto Gonçalo Moniz – Fiocruz Bahia e concluiu o doutorado em Patologia Humana e Experimental pela Universidade Federal da Bahia. Hoje vive em São Paulo, onde atua como professora e pesquisadora no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo. Curiosamente, o sonho de ser cientista não esteve presente desde a infância. “Durante muito tempo eu não me enxergava ocupando esse lugar”, conta a pesquisadora, em entrevista ao BAMIN em Ação. “Em filmes, séries e livros, o perfil de cientista que aparecia quase sempre era masculino, branco e mais velho”, reflete.

Foi ainda na universidade que a pesquisa entrou definitivamente em sua vida, durante um projeto sobre HIV desenvolvido no Instituto Gonçalo Moniz. A experiência revelou a potência da investigação científica como ferramenta para melhorar a saúde pública e abriu caminho para uma carreira dedicada à vigilância genômica de vírus emergentes. Ao longo desse percurso, Jaqueline também enfrentou barreiras estruturais que ainda marcam o ambiente acadêmico. “Para mulheres negras na ciência, essas barreiras muitas vezes estão associadas ao racismo estrutural, à exclusão de determinados espaços e a uma sensação constante de não pertencimento”, relata.

Segundo a pesquisadora, o preconceito nem sempre aparece de forma explícita. “Na ciência, o racismo raramente se manifesta de forma direta. Muitas vezes ele é velado”, afirma. “Viver microagressões cotidianas ao longo de anos tem um impacto real. Em alguns momentos cheguei a questionar se eu realmente tinha o direito de pertencer àquele espaço”, revela. Com o tempo, ela transformou essa experiência em motivação para seguir adiante e contribuir para mudanças dentro das instituições científicas.

Hoje, além de continuar investigando vírus como dengue, zika e chikungunya em projetos de vigilância genômica internacional, Jaqueline também se tornou referência e inspiração para novas gerações de pesquisadoras. Para ela, a presença feminina na ciência tem um impacto que vai além dos laboratórios. “Representatividade importa. Ver alguém que se parece com você em posições de liderança pode ser um estímulo importante para seguir na carreira científica”, conclui.

Curiosidades sobre Jaqueline Goes

  • Participou do sequenciamento do vírus Zika – Antes da pandemia de COVID-19, Jaqueline integrou a equipe internacional que sequenciou o genoma do vírus da Zika durante a epidemia que afetou o Brasil e outros países das Américas.
  • Já percorreu o Nordeste fazendo ciência de campo – Ela participou do projeto ZIBRA (Zika in Brazil Real-Time Analysis), que utilizava um laboratório móvel para sequenciar o vírus em diferentes cidades, permitindo analisar rapidamente a circulação da doença.
  • Recebeu o Prêmio CAPES de Tese – Em 2020, foi vencedora do prêmio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior na área de Medicina II, com a pesquisa sobre vigilância genômica em tempo real de arbovírus emergentes.
  • Virou personagem da Turma da Mônica – Em homenagem ao seu trabalho durante a pandemia, foi representada como a personagem Milena em uma ilustração do projeto Donas da Rua da Mauricio de Sousa Produções, que celebra mulheres que se destacam em diferentes áreas da sociedade.

*Fotos: Câmara dos Deputados/Raissa Mesquita; Divulgação Mattel/ Via BBC; Foto de destaque – Redes Sociais Jaqueline Góes

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