Uma união de territórios, histórias e a cultura em movimento

Quando milhões de pessoas ocupam as ruas de Salvador ao som dos trios elétricos, o espetáculo parece absolutamente contemporâneo. Mas a história do Carnaval da capital baiana começa muito antes das guitarras elétricas e dos grandes circuitos. Suas raízes estão no século XVI, com a chegada dos primeiros portugueses. O BAMIN em Ação desta semana volta no tempo para contar como a maior festa de rua do Brasil nasceu a partir de uma tradição europeia, ganhou contornos locais e se transformou ao longo de mais de quatro séculos.

O começo com o Entrudo

Em 1549, quando Tomé de Sousa desembarcou em Salvador para instalar o governo-geral, trouxe consigo costumes da metrópole. Entre eles, o Entrudo, celebração popular que antecedia a Quaresma. A brincadeira era simples e intensa. Pessoas jogavam água, farinha, ovos e frutas umas nas outras, em uma espécie de batalha festiva que tomava as ruas.

A prática rapidamente se espalhou pela cidade, então capital do Brasil colonial. De acordo com o jornalista e pesquisador Nelson Cadena, em seu livro História do Carnaval da Bahia – 130 Anos do Carnaval de Salvador, há registros de festejos ainda nos séculos XVI e XVII, inclusive durante a invasão holandesa de 1624. Um relato da época descreve comemorações realizadas em quatro navios, mesmo em contexto de guerra.

O Carnaval, explica Cadena, foi institucionalizado pela Igreja Católica como período de extravasamento antes dos 40 dias de recolhimento da Quaresma. Os jesuítas trouxeram essa cultura e a incorporaram às estratégias de catequese, utilizando música e elementos lúdicos para dialogar com os povos indígenas. Desde o início, a festa se desenvolveu como um espaço de contato entre diferentes matrizes culturais.

O destaque da Rua Chile

Ao longo dos séculos XVIII e XIX, o Entrudo ganhou força nas ruas de Salvador, especialmente na Rua Chile, então um dos principais endereços da cidade. Havia dois tipos de brincadeira. O Entrudo de salão, mais refinado, utilizava pequenos “limões” de cera recheados com água perfumada. Já o Entrudo de rua era mais popular e incluía água, farinha, ovos e até restos de alimentos. Com o tempo, os excessos levaram à repressão. A Câmara Municipal publicou decreto proibindo a prática, alegando riscos à saúde pública e à ordem urbana. A proibição marcou uma virada no formato da festa.

A oficialização e o modelo europeu

Em 1884, o Carnaval de Salvador foi oficialmente instituído e passou a adotar um modelo inspirado nos desfiles europeus, em sintonia com o interesse das elites brasileiras por referências culturais da França e de outros países do continente. A influência se intensificou após a viagem de Dom Pedro II a Paris, em 1878, impulsionando a criação de clubes carnavalescos formados principalmente por comerciantes e profissionais liberais. Os cortejos ganharam organização formal, com arautos, guarda de honra e carros alegóricos que apresentavam temas históricos, enquanto músicas instrumentais animavam o público e os corsos, veículos ornamentados, passaram a desfilar pelas ruas da cidade.

A presença africana e os afoxés

Enquanto o modelo oficial seguia referências europeias, a presença africana redefinia o Carnaval de Salvador desde o fim do século XIX, com a entrada de blocos de origem africana e o desfile do primeiro afoxé, em 1895. Com cânticos em nagô, forte percussão e símbolos do candomblé, esses grupos enfrentaram resistência da elite e da imprensa, culminando em uma portaria de 1905 que proibiu sua presença nas áreas centrais. Ainda assim, os afoxés continuaram ativos em outros espaços e, ao longo do tempo, ritmos, danças e formas de organização da população negra passaram a integrar de forma definitiva o repertório musical e estético da festa.

O som ganha as ruas

Até meados do século XX, o som dos desfiles mal ultrapassava alguns metros. Cada carro executava sua própria música, que se perdia rapidamente, mesmo com a instalação de cornetas em postes para tentar ampliar o alcance. A mudança veio no início da década de 1950, quando Dodô e Osmar criaram o trio elétrico e instalaram a amplificação sobre um veículo, fazendo a música percorrer as ruas junto com o público. Ainda com estruturas simples e sob desconfiança de parte da elite, o novo formato alterou a dinâmica da festa e colocou o folião no centro da cena.

Esse modelo também ajudou a projetar um instrumento que se tornaria símbolo da sonoridade baiana: a guitarra baiana. Derivada do pau elétrico desenvolvido por Dodô e Osmar, ela foi popularizada por Armandinho Macêdo nos anos 1970 e passou a ser marca registrada do Carnaval de Salvador.

As vozes e o nascimento do axé

No fim da década de 1960 e início dos anos 1970, o Carnaval de Salvador passou por nova transformação quando artistas baianos começaram a compor músicas específicas para os trios elétricos, com destaque para Moraes Moreira – primeiro cantor de trio -, Caetano Veloso e outros nomes que colocaram as vozes no centro da festa. Já nos anos 1980, o fortalecimento da indústria fonográfica local e maior visibilidade na imprensa impulsionaram o Axé Music, movimento que combinou influências caribenhas, percussão afro-baiana e instrumentos de sopro.

Salvador também teve escolas de samba

 Antes do domínio dos trios elétricos, Salvador teve suas próprias escolas de samba, como Filhos do Tororó, Diplomatas de Amaralina e Juventude do Garcia, que desfilavam pelas ruas com enredos, alas luxuosas e porta-bandeiras, enquanto o público acompanhava de cadeiras nas calçadas. Até a década de 1950, cordões e batucadas ditavam o ritmo da folia, e a cidade vivia o samba como espetáculo de rua. Com o surgimento dos trios elétricos e a nova dinâmica da festa na década de 1970, muitas dessas escolas perderam espaço e precisaram se reinventar.

Blocos indígenas

 O surgimento dos blocos indígenas no Carnaval de Salvador remonta ao final da década de 1960, quando a influência dos filmes de faroeste norte-americanos inspirou a criação de entidades como o Apaxes do Tororó e o Commanche do Pelô. Originalmente, os blocos desfilavam com baterias de percussão formadas por ex-integrantes de escolas de samba e figurinos que celebravam referências indígenas, ocupando as ruas como espaço de expressão cultural própria. Com o tempo, muitos grupos enfrentaram desafios financeiros e transformações, incorporando trios elétricos e abadás, mas mantiveram viva a presença indígena no Carnaval. O Apaxes do Tororó, por exemplo, retornou à tradição da bateria no chão, reforçando a valorização de sua história e da cultura indígena na folia soteropolitana.

Entre tradição e reinvenção

Ao longo das décadas, a festa mudou de formato diversas vezes. Elementos como os enredos elaborados dos antigos clubes e a tradição das fantasias perderam espaço em alguns circuitos. Por outro lado, surgiram novas estruturas, como os camarotes, e discussões sobre acesso e abertura dos blocos ganharam força.

Do Entrudo português às guitarras elétricas, dos bailes mascarados aos trios que percorrem quilômetros de avenida, o Carnaval de Salvador revela uma trajetória marcada por influências europeias, contribuições africanas, indígenas e reinvenções constantes. Uma festa que começou como costume importado e se tornou um dos maiores espetáculos urbanos do planeta, com marca própria e alcance global.

Compartilhe

Pular para o conteúdo